João 2,4: Maria nas Bodas de Caná

Bodas de Caná

INTRODUÇÃO

A reflexão sobre o episódio ocorrido nas bodas de Caná da Galileia irá ocorrer em torno de uma expressão particular, tão polemizada por algumas pessoas. Para tal ação, irei discorrer sobre o assunto utilizando o texto grego bizantino dos evangelhos.

REFLEXÕES

O texto-chave é do capítulo 2 do evangelho de São João:

Λέγει αὐτῇ ὁ Ἰησοῦς, Τί ἐμοὶ καὶ σοί, γύναι; Οὔπω ἥκει ἡ ὥρα μου. (João 2,4)

A expressão a ser refletida está em destaque: “Τί ἐμοὶ καὶ σοί”. Ela é traduzida da seguinte forma para o português pela bíblia de Jerusalém: “Que queres de mim?”, sendo muitas vezes utilizada por protestantes para tentar criar alguma desavença entre Jesus e sua mãe. Mas vejamos se foi realmente isso que aconteceu nas considerações que virão a seguir.

Vista a tradução deste fragmento, lembramos também que esta expressão também é utilizada em outras ocasiõe: Mc 5,7; Mc 1,24; Lc 8,28; Lc 4,34 e Mt 8,29.

No singular:

καὶ κράξας φωνῇ μεγάλῃ εἶπεν, Τί ἐμοὶ καὶ σοί, Ἰησοῦ, υἱὲ τοῦ θεοῦ τοῦ ὑψίστου; Ὁρκίζω σε τὸν θεόν, μή με βασανίσῃς. (Marcos 5,7)

Ἰδὼν δὲ τὸν Ἰησοῦν, καὶ ἀνακράξας, προσέπεσεν αὐτῷ, καὶ φωνῇ μεγάλῃ εἶπεν, Τί ἐμοὶ καὶ σοί, Ἰησοῦ, υἱὲ τοῦ θεοῦ τοῦ ὑψίστου; Δέομαί σου, μή με βασανίσῃς. (Lucas 8,28)

No plural:

καὶ ἰδού, ἔκραξαν λέγοντες, Τί ἡμῖν καὶ σοί, Ἰησοῦ υἱὲ τοῦ θεοῦ; Ἦλθες ὧδε πρὸ καιροῦ βασανίσαι ἡμᾶς; (Mateus 8,29)

λέγων, Ἔα, τί ἡμῖν καὶ σοί, Ἰησοῦ Ναζαρηνέ; Ἦλθες ἀπολέσαι ἡμᾶς; Οἶδά σε τίς εἶ, ὁ ἅγιος τοῦ θεοῦ. (Marcos 1,24)

λέγων, Ἔα, τί ἡμῖν καὶ σοί, Ἰησοῦ Ναζαρηνέ; Ἦλθες ἀπολέσαι ἡμᾶς; Οἶδά σε τίς εἶ, ὁ ἅγιος τοῦ θεοῦ. (Lucas 4,34)

Você deve estar se perguntando: Que semelhança há entre todas estas passagens que falam de um endemoniado interceptado por Jesus e o episódio das bodas de Caná? A semelhança está no fato de que quando o sujeito que usa a expressão “Τί ἐμοὶ καὶ σοί, ele está ciente da autoridade da pessoa a quem está dirigindo a expressão, ou seja, já sabia o que queria quem estava a interceptar e também o que havia de acontecer depois. Vejamos o que aconteceu depois que os demônios que afligiam os endemoniados fizeram a pergunta:

– Em Mt 8,29, depois de terem vindo ao encontro de Jesus, os demônios interrogaram-no sobre o que queria deles e se Ele havia vindo até Gadara para atormentá-los. Detalhe, até então não é relatado que Jesus tinha falado palavra alguma, e mesmo assim os demônios acabaram implorando para Jesus expulsá-los dos endemoniados. Jesus só disse “ide”, ratificando desta forma que os demônios já estavam cientes do desejo que Jesus tinha que os possuídos fossem libertos deles.

Da mesma forma aconteceu nas outras ocasiões descritas em Mc 5,7; Mc 1,24; Lc 8,28 e Lc 4,34: os demônios, que já conheciam quem era Jesus(*), sabiam da vontade dEle, já que Ele veio para “desfazer as obras do diabo” (I João 3,8).

Dito isso, por analogia, fica evidente que se trata de uma pergunta retórica que Jesus fez em João 2,4, uma vez que Ele já conhecia quem era sua mãe e qual era seu desejo(*), revelando já uma certeza de que Ele interviria onde fora sugerido pela sua mãe. Confirmando este pensamento, Maria no versículo seguinte diz “fazei tudo o que Ele vos disser”, revelando com clareza cartesiana a ausência de dúvidas que Maria possuía de que seria atendida em sua sugestão.

E para desqualificar de vez a interpretação protestante de que houve alguma divergência entre Jesus e Maria, vemos que Jesus diz: “Minha hora ainda não chegou”. Oras, Jesus quando disse que sua hora ainda não havia chegado mostra que intervindo onde era sugerido por Maria Ele, de alguma forma, estaria fazendo o que havia de ser feito quando chegasse a sua hora. E não deu outra! Ele interveio onde foi sugerido por sua mãe, adiantando a sua hora.

Como assim “adiantando a sua hora”? Isso mesmo, adiantando a hora de Jesus. Qual é a hora de Jesus? A hora de Jesus é a hora da cruz, a hora do calvário,a hora do mistério pascal, a hora onde Ele renova todas as coisas, a hora em que Ele é glorificado pelo Pai manifestando toda a sua glória:

Assim falou Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: “Pai, chegou a hora: glorifica o teu Filho, para que teu Filho te glorifique” (João 17,1)

E agora, glorifica-me, Pai, junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse” (João 17,5)

Da mesma forma ocorreu nas bodas de Caná, no adianto da hora de Jesus:

Esse princípio dos sinais, Jesus o fez em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nEle” (João 2,11).

CONCLUSÃO

Isso tudo mostra o quanto é enganosa e enganada a interpretação protestante que por meio de um artificialismo tenta criar uma divergência entre Jesus e sua mãe. O episódio só relata todo o papel de Maria na economia da salvação: o vinho novo, o vinho da salvação é produzido por uma intervenção de Maria. Aí está o papel de co-redentora que a Igreja aplica a Maria. Todo o contexto do texto desqualifica a exegese protestante, e este presente texto veio para explicar e contextualizar um dos principais jargões do arsenal protestante em tentar criar oposição entre Jesus e sua mãe: a expressão “Que queres de mim?”, colocando-a dentro do contexto do texto e dentro da sua real utilização nas próprias Escrituras.

Por Jesus e Maria,
Lucas Henrique.

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PARA CITAR:

OLIVEIRA, Lucas H. Firmat Fides: João 2,4: Maria nas Bodas de Caná. Disponível em: < https://firmatfides.wordpress.com/2013/09/14/joao-24-maria-nas-bodas-de-cana/ >. Desde 14/09/2013.

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3 pensamentos sobre “João 2,4: Maria nas Bodas de Caná

  1. Olá, boa tarde! Desde já agradeço o espaço para expressar minha opinião… Sobre o ponto em que se compara o episódio do encontro com os endemoniados e a fala de Jesus com sua mãe, acho que deveria ser analisado também o reconhecimento de autoridade de Jesus para com os demônios os quais já reconheceram por ser superior e ter autoridade sobre eles como Filho do Deus Altíssimo dado ao fato de serem de sua origem seres celestiais que existiam e existem desde o principio, ou seja, como criaturas de intenções contrárias a de Jesus eles o indagaram do por que de atormentá-los fora do tempo… assim também fez Jesus com sua mãe Maria, (pessoa da a qual não devemos atribuir desonra pois foi a única escolhida entre TODAS com devoção a Deus suficiente para ser a geradora de seu filho, só não devemos a colocar como autoridade superior ou igual a Dele pois ela mesmo nos destaca isso em sua fala onde direciona o foco da autoridade toda para ele pedindo que fizessem exatamente o que Jesus mandasse fazer), pois Maria queria que a festa não se acabasse, que continuassem a servir o vinho pois na mente dela a alegria da festa viria do vinho e sua falta traria tristeza e vergonha para o evento… e na mente de Jesus o que era realmente importante naquela hora? a alegria que vem do vinho? Jesus disse que sua hora ainda não era chegada pois não era ainda de se entregar para a vontade dos homens que mais tarde seria a de executá-lo, pois ele ainda estava para fazer cumprir primeiramente a vontade de Deus que era a pregação do evangelho.
    Esta é minha opinião particular que eu acato não por indução ou ensinamento de terceiros, mas, da forma individual que Deus me a apresenta.
    Ouçam a Jesus, Maria gostaria disso.

    Fiquem em Paz!
    Unam-se em espírito e em verdade e não em doutrina e costumes, pois a doutrina e costume não seriam o suficiente para os nossos irmãos israelitas que eram mestres nestes requisitos, e sim o espírito e verdade é que os salvarão e a nós que nunca praticamos os ritos de sacrifícios nem as ofertas como eles faziam…. somos perdoados, aceitos e salvos pelos nossos sentimentos e obras geradas por estes sentimentos.

  2. Caro Jeremias,

    Obrigado pela sua opinião. Mas o pressuposto do meu texto já trata de sua observação e é exatamente este: o da autoridade de Jesus para com os endemoniados, que utilizaram a expressão “τί ἡμῖν καὶ σο” como reconhecimento disso.

    Eu não quis dizer que Maria tinha mais autoridade que Jesus, longe disso. O parágrafo quatorze do capítulo primeiro do “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de S. Luis Maria Grignion de Montfort trata bem o que é a posição da Igreja sobre o lugar de Maria em relação à Majestade Divina.

    Eu quis expor que, Jesus como bom filho que foi a Maria durante toda a sua vida, submisso a seus pais (cf. Lc 1,51-52), não desrespeitaria Maria nem faltaria com o mandamento de honrá-la.

    No mais, as outras informações que eu quis transmitir estão no texto e não há necessidade de repeti-las =)

    Agora, no fim de seu comentário, discordo de você: A fé não é um sentimento. A ação de Deus nos sacramentos e na sua Igreja não são sentimento, algo de subjetivo. Mas dom, graça viva e eficaz de Deus.

    Pax vobis.
    Lucas H.

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