O zelo católico

Mal começou o pontificado do Papa Francisco e muitos “tradôs” já começaram com o conhecido terrorismo espiritual no que se refere ao Papa. Em razão disso, imagino que seja oportuno fazer uma reflexão em torno do que tem acontecido e por fim, expressar uma opinião de como devemos nos portar, para que o zelo católico seja exercitado pelo bem da santa Igreja de Deus.

Para nosso bem espiritual precisamos parar de fazer arqueologia e começar a conhecer o Papa Francisco (entenda isso como conhecermos ele daqui para frente). Pela razão de que precisamos crer. Sim, crer. A eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio nos surpreendeu a todos, mas uma vez que ele apareceu na sacada de São Pedro, nós precisamos ter fé e dizer: Tu és Pedro. Fé, fé no invisível, fé na graça que ele recebeu ao ser eleito. Agora, vejamos, para não acharem que estou sendo ingênuo. É evidende que um Papa que recebe a graça pode ou não colaborar com a graça. Pode ou não fazer as coisas bem feitas. Mas vamos ser objetivos: todos os Papas cometem erros. O Papa é infalível só num aspecto muito específico. Mas ele não tem infalibilidade pastoral, não tem infalibilidade de governo. Na questão pastoral e na questão de governo ele deve contar com a graça de estado, e ser dócil a ela, e serão suas virtudes humanas que irão possibilitar que essa graça de estado aja ou não. Porque Deus opera e o homem coopera, ou então Deus opera e o homem resiste.

Então vamos entender muito claramente quais são os passos espirituais que nós temos que dar:

  1. Crer
  2. Temos que baixar o escudo, baixar as armas para realmente ouvir o que Deus pode estar falando através deste homem, mas nós nos nossos ouvidos loucos, armados que estamos, não estamos ouvindo. Um conselho que Bento XVI nos deu no primeiro volume do livro Jesus de Nazaré, ele diz assim no prefácio, pág 19: “Não preciso certamente dizer que este livro não é, de modo algum um ato de magistério, mas unicamente a expressão de minha procura pessoal do rosto do Senhor. Por isso, cada um está livre para me contradizer, peço apenas aos leitores, um adiantamento de simpatia sem o qual não há nenhuma compreensão“. Estou querendo dizer que se vamos ouvir uma pessoa, a não ser que seja realmente um cara que seja desonesto, imoral, completamente fora de si, se vamos ouvir uma pessoa temos que em primeiro lugar levá-lo a sério e ter uma benevolência inicial sem a qual não haverá acordo. Senão vamos ficar crispados, a todo momento sobressaltados não vamos conseguir ouvir a contribuição do Papa Francisco. Porque estamos fazendo arqueologia e desinterrando todos os erros do passado (sendo eles apenas boatos ou não)… Pois bem, esqueçamos o passado dele, e vamos ver o futuro que ele pode nos dar, e aí sim a partir desse futuro podemos avaliar. Mas se estamos condenando o homem antes dele abrir a boca, de fazer algo, então não vai haver modo de algo dar certo. Porque cremos que Francisco é sucessor de Pedro, temos que tentar pelo menos ver o bem que dali brota.

Podemos estar em desacordo com um Papa? Sim. O que não podemos é desobedecer. Naquilo que o Papa está realmente mandando, para desobedecermos precisamos ter razões muito sérias, não qualquer desacordozinho não. Podemos estar em desacordo e obedecer, sem erro algum. As pessoas perderam o senso de obediência católica. Ela serve para quando nós não estamos de acordo. Porque do que que adianta só obedecermos quando concordamos? Obediência serve exatamente para quando não concordo. Portanto para desobedecer ao meu superior eu preciso estar seriamente convencido de que convém antes obedecer a Deus do que os homens, como disse Pedro diante de Gamaliel. Porque cremos, nas decisões tomadas pelo Papa Francisco temos que tentar ver a bondade de Deus naquilo que ele estará nos dizendo.

Um exemplo bem claro para falar bem concretamente do Papa Francisco: A simplicidade dos paramentos litúrgicos. Eu estou de acordo que seja assim? Bom, podemos fazer duas considerações,uma pró e uma contra. A favor: vamos tentar concordar com a decisão do Papa, dos paramentos despojados. Vamos lembrar o seguinte, que nós estamos já a 167 anos sem um Papa religioso. Dos 266 Papas da história, somente 34 foram religiosos. O último religioso foi Gregório XVI que foi beneditino camaldulense. Agora temos um jesuíta. Desses 34 religiosos 17 foram beneditinos, inclusive o primeiro religioso que foi eleito Papa foi São Gregório Magno. São Gregório Magno quando foi eleito Papa ele recebeu muitas críticas, porque ele embora fosse Papa queria continuar seu estilo de vida monástica, depois viu que não era possível, mas ele queria continuar seu estilo de vida monástica. O Papa Francisco é um jesuíta com voto de pobreza. Ele escolheu continuar vivendo a pobreza porque depois de bispo o bispo é liberado de seu voto de pobreza. Mas ele escolheu continuar vivendo o seu voto de pobreza, continuar vivendo a sua dedicação aos pobres, a sua simplicidade no seu jeito de ser. Que eu posso não concordar com a decisão dele, mas eu tenho que respeitá-la, e uma vez que ele é Papa é minha obrigação filial com todo o meu coração tentar ver algo de bom nisso que ele está fazendo. É um exercício de entrar de acordo com o Papa.
Por outro lado, eu tendo a discordar desta atitude dele, porque São João Maria Vianney. Ele tinha uma vida ascética extraordinária, uma batina esfarrapada, uma vida miserável de comedor de batatas, um homem que dormia no chão, que vivia penitências enormes, usava cilício, se flagelava, praticava disciplina, etc. Cuidava dos órfãos, tinha um engajamento social imenso, porém quando vinha a Paris ia às melhores lojas de paramento para comprar os ornamentos mais preciosos para a sua pequena paróquia de Ars.

Por que? Porque trata-se do paradoxo do cristianismo. Na página 106 do livro “Ortodoxia”, no capítulo “Paradoxos do Cristianismo”, Chesterton cita o caso de São Tomás Becket dizendo desta forma: “(…) assim também no cristianismo aparentes acidentes se equilibravam, Becket usava um cilício sob suas vestes de ouro púrpura, e há muito a dizer em defesa desta combinação, pois Becket se beneficiava com o cilício enquanto as pessoas na rua se beneficiavam vendo o ouro púrpura (…)”. E também o próprio Chesterton diz que essa coisa não está necessariamente só numa pessoa, pode também estar em vários santos: a Igreja coloca no mesmo altar um santo vestido de pele de camelo, e um santo coroado de Rei. São santos, os dois… Assim a Igreja pode ter um Papa que nos dê um dom precioso de uma liturgia solene, bela, brilhante, que faça elevar o nosso coração, que encha o nosso coração, e ao mesmo tempo, ter um Papa que vive a ascese de um religioso da mais dura e da mais severa. Nenhum Papa é completo. Todos tem algo para nos ensinar, porque são nossos pais. Vamos aprender, nenhum Papa é completo. Perdoemos os erros de Bento XVI. Perdoaremos também os de Francisco. É assim, sempre foi assim, porque nós somos católicos, e o coração católico tem 266 Papas e não somente 1.

As pessoas estão agindo com falta de fé, eu estou vendo as pessoas desesperadas na internet, como se isso aqui fosse uma troca de governo. Mas será que nós somos tão obcecados pela democracia, pelo regime democrático que nós não entendemos mais o que é o papado? Não foi um partido que mudou, não estamos aqui diante do antigo regime e o novo regime, é o papado que continua. Bento XVI lutou para que se tivesse a hermenêutica da continuidade para com o Vaticano II, lutemos para que haja a hermenêutica da continudade para ler o papado de Francisco. Se ele é alguma coisa na Igreja, ele é enquanto sucessor de número 266 de Pedro, e não enquanto um fundador de uma nova Igreja. Tudo que ele disser, fizer, terá sentido nesta grande Tradição de 2000 anos da Igreja. Todos os Papas não foram completos, são homens, mas o coração católico acolhe a riqueza de todos. Acho uma pena que as pessoas estejam já armadas diante do Papa Francisco e não estejam vendo a preciosidade que ele está dizendo em suas homilias. Ele fala com uma clareza, de um jeito que até as crianças de primeira comunhão entendem. Está cativando o mundo, as pessoas estão se desarmando diante dele. Na Europa que estava toda armada contra a Igreja agora está se desarmando. As verdades que ele está pregando são coisas extraordinárias.

Estou simplesmente dizendo o seguinte, como acima: creia, tenha uma simpatia, uma antecipação de simpatia como disse Bento XVI, uma benevolência sem a qual não será possível ouvir o Papa Francisco. Procure aprender algo que Deus queira estar ensinando a você através desse papado. E vamos ver, o pontificado só começou e o pontificado do Papa francisco vai realmente mostrar a que veio quando ele realmente começar a governar, mas já tem gente sofrendo antes dele fazer um ato de governo sequer. Como até agora ele não fez nenhum ato de governo não podemos dizer nada ainda sobre o governo dele. Esqueçamos Jorge Mario Bergoglio e aceitemos o Papa Francisco, vamos ver daqui para a frente, será aquilo que será.  Vamos esperar espiritualmente, com muito zelo, o que há de vir.

Confiemos em Deus, creiamos a Igreja.

Para a maior glória de Deus,
Lucas Henrique.

Referência:

* Adaptado.

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Um pensamento sobre “O zelo católico

  1. O texto é equilibrado, sensato, prudente. Concordo com tudo o que você disse. Conversando com um padre muito digno e meu amigo, após a Santa Missa agora a pouco mesmo, ele me dizia que o problema é a enorme diferença entre o estilo de Bento XVI e Francisco. Os dois são quase polos opostos enquanto pastores de homens, ambos claramente receberam dons muito diversos para conduzir a Igreja.

    Como disse lá no “Voz da Igreja”, não deixo de reconhecer que alguma atitudes iniciais de Francisco realmente me causaram estupor, como recusar-se a dar a benção apostólica com o Sinal da Cruz em respeito aos que não tem fé. Acho que isso chocou muita gente, você também deve estar por dentro da repercussão que esse gesto (ou a falta do gesto) teve, mas lembremo-nos que, – como você bem disse, – ser humano algum está livre de erro, de equivocar-se, mesmo na melhor das intenções, e ainda é cedo para formar uma opinião definitiva sobre um papado que tem ainda poucos dias de existência.

    No mais, faço coro às suas palavras: “Confiemos em Deus, creiamos a Igreja”, e acrescento: rezemos, rezemos muito e com fé.

    A Paz de Nosso Senhor

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