Porque as verdades inacessíveis à investigação da razão foram convenientemente propostas aos homens para a fé?


Michelangelo (1475-1564), O profeta Ezequiel (1510), Capela Sistina

1.  Pareceu a alguns que não se devia propor aos homens como de fé as verdades que a razão não é capaz de descobrir, visto que a sabedoria divina providencia para cada coisa o que lhe cabe, segundo a natureza das coisas. Por tal, deve-se provar que foi necessário ter-se proposto ao homem, como de fé divina, também as verdades que excedem a capacidade da razão.

2. Nenhum desejo ou cuidado se dirige para uma coisa se esta não for previamente conhecida. Ora, os homens estão ordenados pela providência divina para um bem mais elevado que o capaz de ser experimentado pela fragilidade humana da presente vida, como após se verá. Devido a isso, foi conveniente que a mente fosse atraída para algo mais alto que o atingido no presente pela nossa razão, de modo que esta aprendesse a desejar algo que excedesse totalmente o estado da presente vida, e se esforçasse para procura-lo.

Isto pertence propriamente à religião cristã, que promete de modo especial os bens espirituais e eternos. Daí o serem propostos por ela muitos bens que excedem a percepção humana. A lei antiga, que prometia bens temporais, propôs umas poucas verdades que excedem o conhecimento da razão humana.

Também os filósofos, com este intento, procuraram mostrar que há bens mais valiosos que os sensíveis, a fim de levarem os homens, desde os prazeres sensíveis, para a honestidade. Ora, com o gozo destes bens mais valiosos deleitam-se muito mais suavemente os que praticam as virtudes, tanto da vida ativa quanto contemplativa.

3. Foi também necessário terem sido tais verdades propostas à fé dos homens, para que estes tivessem um conhecimento mais veraz de Deus. Com efeito, só conhecemos verdadeiramente Deus quando cremos que ele está acima de tudo aquilo que é possível ser pensado a respeito de Deus pelo homem, dado que a substância divina eleva-se acima do conhecimento natural do homem, como já foi dito acima (cap. 3). Por isso, pelo fato de que são propostas ao homem verdades a respeito de Deus que excedem a razão, firma-se no homem a opinião de que Deus é algo acima de tudo aquilo que se possa pensar.

4. Disto vem também para o homem uma utilidade, qual seja o afastamento da presunção, que é a mãe do erro. Há muitos, de fato, tão presunçosos da sua capacidade mental que julgam abarcar toda a natureza das coisas pelo seu intelecto, e pensam que tudo que vêem é verdadeiro e falso o que não vêem. Para que, pois, o espírito humano, libertado desta presunção, se aproximasse da molesta investigação da verdade, necessário foi proporem-se ao homem algumas verdades divinas que lhe excedessem o intelecto.

5. Encontra-se uma outra utilidade no que narra o Filósofo (X Ética). Um certo Simônides, desejando persuadir os homens a que abandonassem o conhecimento das coisas divinas e aplicassem a razão só às coisas humanas, dizia-lhes: “Basta ao homem saber as coisas humanas, e ao mortal, as coisas mortais”. Contestava-o o Filósofo, então: “O homem deve, na medida do possível, elevar-se às coisas imortais e divinas”.  Afirma o mesmo que embora pouco captemos das substâncias superiores, contudo, este pouco é mais amado e desejado que todo o conhecimento que temos das substâncias inferiores.

Escreve ainda que, apesar de as questões sobre os corpos celestes serem explicadas limitada e superficialmente, isto traz para o leitor imensa alegria.

Conclui-se, pois, do que dissemos, que por mais imperfeito que seja o nosso conhecimento das coisas sutilíssimas, ele traz para a alma a máxima perfeição.

6. Conclui-se, finalmente, que não obstante a razão humana não poder compreender plenamente as verdades que estão acima de si, contudo, ela adquire grande perfeição se ao menos as admite pela fé.

7. Por isso, é dito no livro do Eclesiástico: “Muitas coisas apresentadas estão acima da razão humana (3, 25), e, na primeira carta aos Coríntios: A nós, no entanto, Deus revelou pelo seu Espírito (2, 11).

SCG, Livro1, Cap.5

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