A intimidade do Cristo

“Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?”
“Podeis beber o cálice que hei de beber?” (Mt 20, 21)

Para melhor penetrar nas profundezas do mistério da Redenção, é preciso falar da intimidade do Cristo ou da amizade de predileção que Ele tem por certas almas mais fiéis e mais generosas. Entre essas almas, uma é chamada no Evangelho por essas simples palavras: “O discípulo que Jesus amava”. Se queremos compreender o valor da amizade do Salvador, seu princípio, seu motivo, sua ternura, sua força, seus dons inestimáveis, contemplemos aquela que Ele teve por São João.

O mais amado de todos os apóstolos devia ser bem perfeito, para que Nosso Senhor experimentasse tal agrado por ele; sua pureza o encantava. Não era, no entanto, a perfeição de João que atraía o amor de Jesus; ela foi, ao contrário, o efeito, o resultado deste amor que encontrou agrado nessa perfeição, diz Bossuet, como o artista agrada-se com uma obra bem feita. O amor de Deus e de Jesus por nossas almas não pressupõe a amabilidade em nós, mas Ele a põe em nós, Ele a cria e aumenta, assemelhando-nos a Ele. Detendo-se sobre nós, o amor divino produz em nós a vida da graça e Ele não cessa de fazê-la crescer se não lhe opomos obstáculos1.

Vejamos como Nosso Senhor, pela sua amizade, tornou São João cada vez mais parecido com Ele mesmo; vamos nos inspirar em Bossuet2, que assinala que o Salvador deu ao discípulo bem amado três dons: sua cruz, sua mãe e seu coração. Mas parece preferível seguir a ordem inversa, que é a do tempo: ele mostra melhor o progresso da vida da graça em São João, e como o discípulo bem amado penetrou cada vez mais na intimidade de Cristo. Na Ceia, Jesus lhe deu seu coração; pouco depois, morrendo, deu-lhe sua Mãe; e em seguida, para fecundar seu ministério, Ele lhe deu sua Cruz.

Na última Ceia Jesus dá a São João seu coração.

Todos os apóstolos, nesse momento, são ordenados padres, recebem o caráter sacerdotal e também a Santa Comunhão. Mas João se aproxima mais do coração do Mestre, repousa sua cabeça sobre o peito sagrado do Salvador.

No momento da instituição do sacramento que tem por fim aumentar em nós o amor de Deus, Nosso Senhor quis que um dos seus apóstolos privilegiados sentisse mais vivamente as batidas de seu Coração, que não cessaria agora em diante de viver na Eucaristia, para a consolação e regeneração perfeita das almas.

Que graça interior recebeu então São João? Pode-se concebê-lo lembrando que do corpo de Jesus saía uma graça que vivificava os corações. Certamente, João recebeu então uma graça de luz e de amor: conheceu experimentalmente que o Coração do Salvador só vive por amor de Deus e das almas, compreendeu como a Eucaristia é, aqui embaixo, a grande manifestação desse amor e, sob aparências muito humildes, a própria vida de Deus sempre presente entre nós. Predestinado de toda a eternidade a ser o grande doutor da caridade, João vem beber a caridade na sua fonte mesmo, e receber a inspiração das palavras que os fiéis esperarão santamente até o fim dos tempos. Para melhor falar do amor do Salvador por nós, ele vem sentir de perto o ardor desse fogo espiritual que queima sem destruir e que quer nos transformar nEle.

Como São Paulo se lembra, ao escrever, que foi elevado ao terceiro céu, São João se recorda que ele repousou sobre o Coração do Mestre.

E como falou a águia dos Evangelistas! Ele vincula toda a doutrina cristã a esses pontos fundamentais: Deus é luz e amor. Ele é que, primeiro e gratuitamente, nos amou; nosso amor deve ser uma resposta àquele que Ele nos mostrou, e a caridade fraterna deve ser o grande sinal de nosso amor a Deus.

O próprio São João resume isto escrevendo na sua primeiro Epístola (4, 7-16): “Meus bem-amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus, e conhece Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor. Ele manifestou seu amor por nós enviando seu Filho único ao mundo, para que nós vivamos por Ele. E este amor consiste em que não fomos nós que amamos a Deus, mas ele que nos amou e que enviou seu Filho como vítima de propiciação por nossos pecados. Meus bem-amados, se Deus nos amou assim, devemos também amarmo-nos uns aos outros… Deus é amor; e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele”. É em resumo todo o dogma, e também toda a moral cristã reduzida a seu princípio: o amor de Deus e do próximo, a caridade que deve inspirar e animar todas as virtudes. “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos” (1 Jo 3, 14). É o grande sinal do amor de Deus.

O que João recebeu, o Coração do Mestre, nós o receberemos também. Na Comunhão, podemos receber todos os dias o Coração Eucarístico de Jesus. E se o recebemos, se Nele cremos, devemos imitá-lo. O Coração do Salvador se abre a todos os fiéis, Nele somos todos reunidos, para sermos consumados na unidade. Ele não descarta ninguém.

Para entrar na intimidade de Cristo, é preciso também, a seu exemplo, ter um coração que não exclua ninguém, que esqueça os defeitos do próximo, um coração sensível aos sofrimentos do outro, um coração generoso ou magnânimo, que não retenha nada só para si, que dê sua vida aos outros e a possua, no entanto, melhor. Lembremo-nos de que os bens de Deus se multiplicarão tanto mais quanto os dividirmos com nossos irmãos; não se perde a verdade, a bondade, quando as damos: nós as possuímos mais e santamente.

Alegremo-nos também de ver no próximo o que nos falta; longe de nos deixar levar pela inveja, gozemos com suas qualidades, que são nossas em um sentido, pois que somos um no Corpo Místico do Cristo. A mão pode se alegrar com o que o olho vê. A caridade enriquece assim nossa pobreza; ela nos dá todos os bens comuns; faz nossos em certo sentido todos os dons do Corpo Místico do Salvador, e nos faz participar desde já em certa medida de todos os bens da cidade de Deus.

Mas, para entrar mais ainda na intimidade de Cristo, é preciso ser da escola de Maria, que mais que nenhuma criatura penetrou nesse santuário. Por isso Jesus, no momento em que ia morrer, confiou sua Mãe a São João.

Entre todos os apóstolos, só João está ao pé da cruz. Ele lá está, o coração triturado, testemunha de todas as torturas físicas e morais do Mestre. Jesus o atraiu invisivelmente ao pé da Cruz, para fazê-lo ouvir suas últimas palavras e para lhe dar uma última prova de seu amor.

Aqueles que vão morrer deixam aos que lhes são mais caros um testemunho de afeição, o mais expressivo possível. No momento de morrer, o que deixará Jesus a São João? Ele não tem mais nada; está despojado de tudo, abandonado por todos. Parece mesmo repelido por Seu Pai, quando, vítima em nosso lugar, diz a primeira palavra do Salmo: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?” Nessa completa nudez, o que deixará Jesus a São João?

Deixa-lhe uma lembrança viva, a alma Santíssima que Ele quis mais que todas as outras juntas. Ele lhe deixa Maria: “Filho, diz Ele, eis vossa Mãe”, e a Maria: “Mulher, eis vosso filho” (Jo 19, 27). “E depois dessa hora, diz o quarto Evangelho, o discípulo a levou para sua casa”.

Se o contato do Coração de Jesus na última Ceia vivificou espiritualmente o coração de João, esta palavra do Salvador, dita do alto da Cruz, produz, como uma palavra sacramental, o que ela significa. É dita por Aquele que vai morrer, mas que é ainda bastante forte para tocar os corações e os enriquecer como lhe agrada.

Esta palavra criou, entre Maria e João, por assim dizer, um laço espiritual muito íntimo, análogo àquele que une Jesus à Sua Santa Mãe. Ela deu a Maria uma afeição toda maternal e muito profunda que cobrirá de agora em diante a alma de João, e ao discípulo uma ternura toda filial e respeitosa que faz dele verdadeiramente o filho espiritual de Maria.

Nesta hora de agonia, esta palavra do Cristo moribundo entra no fundo de suas almas como um bálsamo para suavizar seus sofrimentos e acalmar os ferimentos de seus corações. Foi uma imensa consolação para São João, e também para Maria, por que Els, que via as almas, descobriu no discípulo bem-amado, o que ele mesmo não via, a imagem viva do Salvador, alter Christus, imagem que Maria foi encarregada de aperfeiçoar, de tornar cada vez mais semelhante ao Divino Modelo.

Assim, muitas vezes na história das almas, quando Jesus parece se retirar para provar a confiança de seus amigos, Ele lhes deixa sua Santa Mãe, confia-os a Maria.

Não se saberia dizer tudo o que São João recebeu da Virgem. Se as conversas de Santo Agostinho e de Santa Mônica em Ostia foram tão elevadas, o que pensar daquelas de Maria e de São João?

Pela plenitude da graça que ela tinha recebido, a Mãe de Deus era superior aos Anjos; seu coração queimava de uma caridade cuja intensidade a arrebatava sobre a de todos os santos reunidos; esta viva chama não cessava um instante de se elevar a Deus, mesmo durante seu sono, onde se verificava a palavra do Cântico (5, 2): “Ego dormio, sed cor meum vigilat…”(Eu durmo, mas meu coração vigia).

Em semelhante intimidade sobrenatural, quanto deve ter crescido também a caridade de São João, sobretudo quando celebrava a Santa Missa em presença de Maria, em suas intenções, e lhe dava a comunhão! Não sabia ele que a Virgem lhe era incomparavelmente superior pela compreensão do Sacrifício do Altar que perpetua em substância Aquele da Cruz? Maria não tinha o caráter sacerdotal e não podia consagrar, mas “Ela tinha recebido a plenitude do espírito do sacerdócio, que é o espírito do Cristo Redentor” 3. Mediadora universal e Corredentora, ela não cessava de elevar a Deus a alma do apóstolo que se encantou, assim, pela vida escondida e se tornou o modelo dos contemplativos.

É a pureza que tinha preparado São João para viver na intimidade de Cristo; é ela que o qualificou para herdar o amor de Cristo por Maria, que foi profundamente sua verdadeira Mãe espiritual.

Seguindo o exemplo de São João, ponhamo-nos sob a direção imediata da Virgem, como nos convidava S. Grignion de Montfort. Ela é nossa mediadora aos pés de Cristo, como Ele mesmo é nosso mediador aos pés de Seu Pai. Ela será nosso conselho e nossa força, nossa defesa contra o demônio; aumentará o valor de nossos méritos oferecendo-os, ela mesma, a seu Filho; abandonemos a Maria o valor satisfatório e impetratório de nossas ações, de nossas lutas, de nossas orações para que ela consiga com isso, segundo seu agrado, benefícios para as almas que têm mais necessidade. Despojarmo-nos assim será nos enriquecer. Sob a direção de Maria, caminharemos mais seguramente pela via traçada pelo Verbo, que lhe obedeceu sobre a terra; corremos assim pela via dos mandamentos de Deus, porque recebemos a graça que dilata o coração, segundo a palavra do Salmo: “Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatasti cor meum”. A bem-aventurança da Virgem nos ensinará mil coisas por suas inspirações, como um boa mãe entrega a seu filho, com um simples olhar, sem ruído de palavras, o tesouro de sua vida interior. Com ela e na sua intimidade faremos mais progresso em alguns dias do que durante anos de trabalho pessoal cumprido longe dela. Assim fala São Luiz Grignion de Montfort, verdadeiro filho espiritual de Maria, como foi São João4
.

Nosso Senhor deu a São João seu Coração e sua Mãe, que lhe dará ainda para fecundar seu ministério apostólico? Ele lhe dará sua Cruz e progressivamente o fará compreender qual é o seu valor inestimável.

A amizade de Jesus só tem doçuras e complacências; ela é tão forte quanto terna, tende a purificar pela provação e a se associar às almas no mistério da Redenção pelo sofrimento.

Os apóstolos não compreenderam tudo de início. Como Jesus falava da fundação do reino de Deus, os apóstolos se perguntavam um dia quem dentre eles seria o maior nesse Reino. Então, como conta São Mateus (18, 3), “Jesus, tomando uma criança, colocou-a no meio deles e lhes disse: Eu vos digo, em verdade, se vós não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis de modo algum no Reino dos Céus.” Muitas vezes também o Mestre havia dito: “Se alguém quiser vir atrás de mim, que renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e me siga.” 5 Mas os apóstolos não compreendiam ainda todo o sentido dessa palavra: a cruz. Eles não podiam imaginar que Jesus seria crucificado embora Ele o houvesse predito para eles várias vezes.

Um dia, subindo a Jerusalém com eles, Nosso Senhor renova a profecia da sua Paixão, de sua Crucificação, de sua Ressurreição; Ele queria gravá-la mais profundamente no espírito de João e de seu irmão. Nesse momento, a mãe destes se aproxima de Jesus e se prosterna como para pedir alguma coisa. Como o conta São Mateus (20, 21), Jesus lhe diz: “O que queres?” Ela responde: “Ordene que meus dois filhos que aqui estão se sentem um à Vossa direita, outro à Vossa esquerda, no Vosso Reino”. Jesus diz-lhes: “Vós não sabeis o que pedis. Podereis beber do cálice que Eu hei de beber?” — “Podemos”, lhe dizem eles. Ele lhes responde: “Vós bebereis com efeito do meu cálice, quanto a estardes sentado à minha direita ou à minha esquerda, não cabe a mim vo-lo conceder, mas será para aqueles para quem meu Pai o preparou”. Desde esse dia, Jesus deu sua Cruz a seu discípulo bem-amado.

Essa palavra do Salvador, como as duas outras ditas a São João, produziu na alma do discípulo o que ela significava. A partir desse instante, João não procurou mais ser o primeiro; começou a amar o sofrimento, a humilhação e este amor não cessou de crescer em seu coração sob a influência da graça.

Jesus o tornou cada vez mais semelhante a Ele; ora, Ele veio para sofrer como vítima da salvação, para nos salvar pela Sua agonia mais que pelos seus discursos. Ele unirá então, cada vez mais, São João à sua vida laboriosa e crucificada. “Quando Jesus entra em algum lugar, diz Bossuet, Ele ali entra com sua cruz e seus espinhos; Ele concede parte nisso àqueles que O amam”. Ora, João é seu apóstolo bem-amado, Ele lhe faz então presente desta enorme graça que é o amor da Cruz.

João cria de início que, para ter um lugar escolhido no Reino do Filho de Deus, era preciso estar sentado à sua direito e revestido de sua glória. Ele vai aprender porém que entra-se profundamente no Reino, desde aqui embaixo, pelo sofrimento; Ele saberá como a provação nos torna clarividentes para contemplar Jesus nas almas. A aflição lhe abrirá os olhos, João compreenderá o sentido profundo da mais alta das bem-aventuranças, a mais surpreendente para a razão humana: “Bem-aventurados aqueles que sofrem perseguição pela justiça, porque é deles o Reino dos Céus”. Ele é deles desde aqui embaixo, no meio mesmo da perseguição, pela paz profunda que Jesus lhes dá.

Qual foi a cruz de João? Vendo as coisas de fora, parece que, de todos os apóstolos, ele tenha tido a mais leve. Só ele não foi morto nos sofrimentos do martírio. Sofreu, no entanto, a perseguição, sob Domiciano; foi mergulhado, em Roma, num banho de óleo fervendo. Mas este óleo se transformou em orvalho, ele saiu dali refrescado e purificado. Foi em seguida exilado para Patmos, onde Nosso Senhor glorificado lhe apareceu e lhe revelou seus segredos, ordenando-lhe que os escrevesse nesse livro, o mais misterioso de todos os livros sagrados, o Apocalipse.

Vendo as coisas de fora, a cruz de São João parece ter sido mais leve que a dos outros apóstolos. Mas como diz Bossuet6: “A cruz de São João foi a maior d todas no interior. Consideremos o mistério, as duas cruzes de Nosso Salvador. Uma se vê no calvário, e ela parece a mais dolorosa; a outra é aquela que Ele levou durante todo o curso de sua vida, é a mais penosa”. Jesus diz várias vezes a Santa Catarina de Sena, esta cruz interior é aquela do desejo da salvação das almas, desejo combatido pelo espírito do mal, pelo espírito do mundo, pela cobiça que arrasta milhares de almas para sua perda. Na vida de Jesus segue-se o progresso da malícia daqueles que se encarniçam contra Ele, o que torna mais ardente a sede da salvação das almas que O queima e O consome. O martírio do coração é muitas vezes mais doloroso que o outro e pode durar, não somente algumas horas, mas longos anos.

É sobretudo esta cruz interior do desejo da glória de Deus e da salvação das almas que Jesus deu a São João. Ela não atingia pois os sentidos, mas estava impressa por Deus no fundo da alma com o vivo desejo da salvação dos pecadores. Para tornar o apóstolo capaz de carregar esta cruz interior, Jesus lhe inspirava o amor dos sofrimentos, que avivava o desejo mas acalmando-o e impedia a alma de repousar fora de Deus. O mesmo acontece a certas almas chamadas à santidade: se se detém de um modo natural demais numa satisfação que vem das criaturas, logo Nosso Senhor derrama sobre tal satisfação uma gota de amargura; e esta amargura ultrapassa de muito o prazer experimentado; é uma graça crucificante e purificadora.

Enfim a cruz interior para São João veio sobretudo das heresias que mutilaram a Santa Igreja negando a divindade de Jesus. Quanto esta negação deve ter torturado o coração daquele que escreveu o quarto Evangelho, que tinha por finalidade mostrar o Verbo feito carne em toda sua glória! Esta cruz interior vinha também das divisões que se produziram na Igreja nascente, para grande detrimento da caridade. Assim, o apóstolo, com oitenta anos, fazia-se levar pelos seus discípulos à Igreja de Éfeso e, não podendo mais pregar longamente, dizia: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Ele que, na sua juventude, por causa do seu ardor, tinha sido chamado por Nosso Senhor, junto com seus irmãos, boarnerges, filhos do trovão, ele não sabia mais falar a não ser da caridade fraterna, o grande sinal do amor de Deus. João não tinha perdido nada do seu ardor, da sua sede de justiça, mas esta estava espiritualizada e era acompanhada de uma grande doçura. E como os ouvintes lhe perguntavam por que ele repetia sempre a mesma coisa, João respondia: “É o preceito do Senhor e se vós o cumprirdes, é suficiente”.

Tal foi a cruz de João, sobretudo interior.

O Senhor no-la dá também. Há três espécies de cruz: aquelas que ficam inúteis como a do mau ladrão; aquelas que se carrega para reparar as próprias faltas e para merecer a salvação, como a do bom ladrão; e aquelas que fazem pensar na Cruz do Salvador, e que se carrega para trabalhar com Ele para a salvação das almas. A cruz bem carregada nos carrega por sua vez; ela abre os olhos e conduz à contemplação, a ver Deus escondido nas almas. Se ela nos parece por vezes bem pesada, peçamos ao Salvador dar-nos o amor do sofrimento, orientar-nos, pelo menos, neste caminho.

É o que Ele quer, pois que nos deu Seu Coração, o qual é um coração sofrido. Ele nos deu também Sua Mãe, e uma das maiores graças que Nossa Senhora das Dores possa nos obter é a de saborear a cruz que o Senhor nos impôs para nos purificar e nos fazer trabalhar para a salvação das almas7. Isto é verdadeiramente entrar na intimidade de Cristo e participar de sua vida escondida e dolorosa antes de termos parte na sua vida gloriosa no Céu8.

1.    1. Cf. S. Tomás, I, q. 20, a. 2: “Amor Dei est infundens et creans bonitatem in rebus”. É a este princípio que S. Tomás liga todo o tratado da graça; cf. Ia. IIae, q. 110, a. 1, c et ad 1m: “Causatur ex dilectione divina, quod est in homine Deo gratum”.
2.    2. Panegírico de S. João.
3.    3. São palavras de M. Olier.
4.    4. Ver seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, cap. IV, a. 5; cap. V, a. 2, e o resumo que fez sob o título: “O Segredo de Maria”.
5.    5. Mateus, 16, 24.
6.    6. Panegírico de S. João, primeiro ponto.
7.    7. A expressão “saborear a cruz” lembra que Nosso Senhor declarou: “Muitos não provarão a morte antes que vejam vir o Filho do homem no seu reino” (Mt 16, 28). Santo Tomás diz a este respeito (in Mathaeum, 16, 28): “Pecatores absorbentur morte sed justi gustabunt mortem”: Os pecadores são absorvidos, como engolidos pela morte, os justos saboreiam a morte, que é a entrada na vida eterna.
8.    8. Para entrar na intimidade de Cristo, releiamos às vezes o hino composto por uma abadessa beneditina do século XIV:

Jesus dulcis memoria,
Dans vera cordis gaudia;
sed super mel et omnia,
ejus dulcis praesentia.
Nil canitur suavius,
Nil auditur jucundius,
Nil cogitatur dulcius.
quam Jesus Dei Filius.
Jesu, spes poenitentibus,
Quam pius es petentibus!
Quam bonus te quarentibus!
Sed quid invenientibus?

 Doce é a lembrança de Jesus,
Ele dá as verdadeiras alegrias do coração;
Mais que o mel e todas as coisas
doce é a sua presença
Não se canta nada mais suave
nada se ouve de mais agradável
nenhum pensamento é mais doce
que Jesus o Filho de Deus.
Oh Jesus! esperança dos penitentes.
como Vós sois terno para os que vos imploram
como sois bom para os que Vos procuram
mas o que não sois para os que Vos encontram?

Não menos bela é essa oração alemã cantada há muito tempo pelos fiéis:

“Ich danke dir, Herr Jesu Christ
Dass du für mich gestorben bist
Lass dein Glut und deine Pein
An mir doch nicht verloren sein
O liebe, o unendliche Liebe Gottes!

Obrigado Senhor Jesus
Por terdes morrido para nos salvar
Não permiti que Vosso sangue e Vossa Cruz
Sejam para sempre perdidos por mim
Ó amor, Ó amor infinito de Deus por nós!

Digamos como Santo Nicolau de Flüe: “Nimm mich mir, und gib mich Dir” — “Senhor, tomai-me de mim e dai-me a Vós”.

Fonte: permanencia.org.br

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