Fedeli contra Fedeli

No fim de setembro, o site da Associação Cultural Montfort publicou um texto chamado “Quem escapa desta excomunhão hoje?”(1), assinado por Orlando Fedeli. O texto é bem curtinho – seu objetivo principal é dar a conhecer ao leitor um motu proprio de São Pio X chamado Praestantia Scripturae. No documento, o Papa excomunga latae sententiae (sem necessidade de declaração formal) qualquer um que defenda os erros modernistas condenados anteriormente pela Igreja.

Diz Fedeli:

“Desconhecíamos esse Motu Proprio tão importante de São Pio X. Ele lança uma nova luz na polêmica sobre o Concílio Vaticano II. Com efeito, como reconheceu Jean Guitton, o Vaticano II aprovou muitos dos erros Modernistas condenados por São Pio X” (grifo nosso).

Pois bem, daí a perguntinha retórica no título do artigo: quem escapa da excomunhão proferida por São Pio X? Ora, se o Vaticano II aprovou os erros modernistas (como afirma Fedeli), qualquer um que defenda o concílio estaria excomungado. Isso inclui a esmagadora maioria dos bispos que participaram do Vaticano II, por exemplo (claro que Fedeli não diria que Lefebvre ou Castro Mayer teriam incorrido na excomunhão só por participar do concílio).

E é aí que mora o problema. Pensemos, por exemplo, no cardeal Giovanni Montini. Quando João XXIII morreu, em 1963, Montini foi eleito Papa e se comprometeu a continuar o concílio. Estaria ele já excomungado nessa época? E Albino Luciani e Karol Wojtyla, ambos padres conciliares e eleitos para o papado em 1978. Eles aprovaram os documentos do Vaticano II. Estariam excomungados desde a década de 60? E Joseph Ratzinger? Ele não era bispo na época do concílio, mas participou também do Vaticano II. Nenhum deles se levantou contra o que Fedeli chama de “erros modernistas”. Especialmente João Paulo II e Bento XVI são grandes defensores do Vaticano II. Aliás, em um texto longo chamado A Eclesiologia do Vaticano II (2), Fedeli atribui ao então padre Ratzinger uma palavrinha na Lumen Gentium que os montfortistas consideram uma das heresias do Concílio:

A mudança do “é” para o misterioso e vago “ Subsistit” foi sugerida por um pastor protestante a um perito conciliar do Cardeal Frings de Colônia, o então Padre Joseph Ratzinger”.

Então, segundo Fedeli, os defensores do Vaticano II não estariam excomungados latae sententiae (portanto, desde os anos 60) por defender os “erros modernistas do Vaticano II”? Usando o próprio texto de Fedeli, fica difícil pensar em hipótese contrária.

Agora, vejamos o que diz São Roberto Bellarmino em De Romano Pontifice (livro II, capítulo 30):

(…) o Papa herege manifesto deixa por si mesmo de ser Papa e cabeça, do mesmo modo que deixa por si mesmo de ser cristão e membro do corpo da Igreja; e por isso pode ser julgado e punido pela Igreja. Esta é a sentença de todos os antigos Padres, que ensinam que os hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição, e nomeadamente de São Cipriano (lib. 4, epist. 2), o qual assim se refere a Novaciano, que foi Papa (antipapa) no cisma havido durante o Pontificado de São Cornélio: “Não poderia conservar o Episcopado, e, se foi anteriormente feito Bispo, afastou-se do corpo dos que como ele eram Bispos e da unidade da Igreja”. Segundo afirma São Cipriano nessa passagem, ainda que Novaciano houvesse sido verdadeiro e legítimo Papa, teria contudo decaído automaticamente do Pontificado caso se separasse da Igreja.

Esta é a sentença de grandes doutores recentes, como João Driedo (lib. 4 de Script. Et dogmat. Eccles. cap. 2, par. 2, sent. 2), o qual ensina que só se separam da Igreja os que são expulsos, como os excomungados, e os que por si próprios dela se afastam e a ela se opõem, como os hereges e os cismáticos. E, na sua sétima afirmação, sustenta que naqueles que se afastaram da Igreja, não resta absolutamente nenhum poder espiritual sobre os que estão na Igreja. O mesmo diz Melchior Cano (lib. 4 de loc., cap. 2), ensinando que os hereges não são partes nem membros da Igreja, e que não se pode sequer conceber que alguém seja cabeça e Papa, sem ser membro e parte (cap. ult. ad argument. 12). E ensina no mesmo local, com palavras claras, que os hereges ocultos ainda são da Igreja, são partes e membros, e que portanto o Papa herege oculto ainda e Papa. Essa é também a sentença dos demais autores que citamos no livro 1 “De Eccles.”.

O fundamento desta sentença é que o herege manifesto não é de modo algum membro da Igreja, isto é, nem espiritualmente nem corporalmente, o que significa que não o é nem por união interna nem por união externa. Pois mesmo os maus católicos estão unidos e são membros, espiritualmente pela fé, corporalmente pela confissão da fé e pela participação nos sacramentos visíveis; os hereges ocultos estão unidos e são membros, embora apenas por união externa; pelo contrário, os catecúmenos bons pertencem à Igreja apenas por uma união interna, não pela externa; mas os hereges manifestos não pertencem de modo nenhum, como já provamos”.

Ora, o apoio de Wojtyla e Ratzinger (para ficar em apenas dois exemplos) ao Vaticano II (“aos erros modernistas do Vaticano II”, diria Fedeli) era e é explícito, e não oculto. Levando o raciocínio de Fedeli às últimas conseqüências, pelo menos desde 1978 (isso na melhor das hipóteses; na pior, desde 1963) a Igreja estaria elegendo excomungados para o papado. Mas, como diz São Roberto Bellarmino, o herege manifesto não é membro da Igreja, e portanto não poderia sequer ascender ao pontificado, tornando a eleição inválida. Ou seja: a Igreja estaria sem Papa há décadas! É a posição sedevacantista, que, se Fedeli não expressa com todas as letras, é possível concluir de seu texto e sua pergunta: “quem escapa desta excomunhão?”

À luz desse raciocínio, examinemos agora outro texto de Fedeli: chama-se Viva o Papa! (3), e é cheio de ataques ao Vaticano II. Informam-me que é um texto antigo, embora esteja entre os primeiros na seção Veritas do site da Montfort. Vejamos o que diz:

“Há quem afirme que os últimos Papas, por sua adesão aos erros do Vaticano II – Concílio meramente pastoral e não dogmático, portanto falível e que, por isso, ninguém está obrigado a aceitar – teriam perdido o pontificado. Tese temerária, aventureira e imprudente, pois até hoje ninguém a demonstrou com provas claras e irrefutáveis. Essa tese põe os fiéis à beira do cisma, senão dentro dele”.

Bem, se há alguns anos Orlando Fedeli não via comprovação para esta tese do sedevacantismo, agora uma pessoa demonstrou essa “tese temerária, aventureira e imprudente”: essa pessoa é… Orlando Fedeli. Afinal, se Montini, Luciani, Wojtyla e Ratzinger aderiram aos “erros do Vaticano II” (e sua adesão ao concílio é manifesta), eles incorreram, já na década de 60, na excomunhão latae sententiae proferida por São Pio X. Por estarem excomungados, fora da Igreja, não poderiam ter sido eleitos para governá-la, como diz São Roberto Bellarmino; portanto, suas eleições foram inválidas. Pelo raciocínio de Fedeli, não se pode dizer sequer que eles “teriam perdido o pontificado”, mas sim que nunca chegaram a obtê-lo.

Orlando Fedeli, na sua ânsia de atacar o Concílio Vaticano II, acaba dando munição às teses sedevacantistas. Esta é uma prova, clara e irrefutável (como ele mesmo diz), da confusão em que se mete quem resolve contestar o Magistério da Igreja contido nos documentos do Vaticano II, interpretando-o segundo a “hermenêutica da ruptura”, já condenada por Bento XVI. Aliás, se Fedeli e a Montfort querem continuar gritando “Viva o Papa!”, deveriam prestar mais atenção ao que Bento XVI diz e aceitar que existe, sim, uma interpretação do Vaticano II em consonância com o ensinamento pré-conciliar da Igreja. A não ser, claro, que Fedeli e a Montfort tenham se convencido de que Joseph Ratzinger não passa de um modernista excomungado que se passa por Papa…

(1) http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=excomunhao_modernistas&lang=bra

(2) http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=eclesiologia&lang=bra

(3) http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=papa&artigo=vivaopapa&lang=bra

*Campos, Márcio Antônio. Apostolado Veritatis Splendor: Fedeli contra Fedeli. Disponível em http://www.veritatis.com.br/apologetica/149-vaticano-ii/1040-fedeli-contra-fedeli , desde 12 de outubro de 2007.

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