Os santos tem conhecimento das nossas orações?

O primeiro discute-se assim ─ Parece que os santos não tem conhecimento das nossas orações.

1. ─ Pois, diz a Escritura: Tu é que és nosso pai e Abraão não nos conheceu e Israel não soube de nós. Ao que diz a Glosa de Agostinho: Os santos, na outra vida, não sabem o que fazem os vivos, mesmo os filhos. E depois de ter citados as palavras aduzidas do profeta, continua Agostinho: Se esses tão grandes Patriarcas, Abraão e Jacó, não conheciam o estado do povo descendente deles, como os mortos poderão conhecer os atos e favorecer os interesses dos vivos? Logo, os santos não poderão conhecer as nossas orações.

2. Demais. ─ Na Escritura, o Senhor faz dizer ao rei Josias: Por isso, i. é, por teres chorado perante mim, eu te farei descansar com teus pais, para que os teus olhos não vejam todos os males que eu hei de fazer cair sobre este lugar. Ora, a morte não teria livrado Josias de um tal espetáculo, se pudesse conhecer no outro mundo as desgraças que cairiam sobre o seu povo. Logo, os santos mortos não conhecem os nossos atos e, portanto, não ouvem as nossas orações.

3. Demais. ─ Quanto mais perfeita for a nossa caridade, mais somos levados a socorrer os próximos nos seus perigos. Ora, os santos, enquanto viviam neste mundo, davam boas inspirações e manifestamente socorriam aos próximos, sobretudo parentes, nos perigos. Ora, como depois da morte tem caridade muito maior, se tivessem conhecimento dos nossos atos, muito mais inspirariam e auxiliariam nos perigos aos que lhes foram caros e chegados. Ora, não no fazem. Logo, parece não terem conhecimento dos nossos atos nem das nossas orações.

4. Demais. ─ Assim como os santos depois da morte vêem o Verbo, assim também os anjos, de quem diz o Evangelho: Os seus anjos incessantemente estão vendo a face de meu Pai. Ora, nem por contemplarem o Verbo os anjos conhecem tudo; pois, os anjos inferiores são livrados da ignorância pelos superiores, como diz Dionísio. Logo, nem os santos, embora contemplem o Verbo, nele conhecem as nossas orações e o mais que fazemos.

5. Demais. ─ Só Deus lê nos corações. Ora, a oração consiste sobretudo numa elevação do coração. Logo, os santos não tem conhecimento das nossas orações.

Mas, em contrário. ─ Aquilo da Escritura: Ou os seus filhos estejam exaltados ou estejam abatidos, ele o não conhecerá, diz Gregório: Isto não devemos aplicar às almas santas. Pois, as almas absorvidas na contemplação da glória de Deus onipotente, de nenhum modo devemos crer haja fora nada que ignorem. Logo, tem conhecimento das nossas orações.

2. Demais. ─ Gregório diz: A alma que vê o Criador vê também o universo como encerrado num pequeno espaço. Pois, por pouco que contemple a luz do Criador, vê como próximas todas as causas criadas. Ora, o maior obstáculo para as almas dos santos conhecerem as nossas orações e os nossos atos é a distância que delas nos separa. Mas, como essa distância não é mais um empecilho, do modo explicado pela autoridade citada, parece que as almas separadas conhecem as nossas orações e todos os nossos atos.

3. Demais. ─ Se os santos não soubessem o que nós fazemos, também não orariam por nós, por ignorarem as nossas necessidades. Ora, esse é o erro de Vigilância, como refere Jerônimo. Logo, tem conhecimento do que fazemos.

SOLUÇÃO. ─ A divina essência é um meio suficiente para fazer conhecer tudo; o que resulta do fato de Deus, contemplando a sua essência, ver nela todas as cousas. Mas daí não resulta, que quem visse a essência de Deus tudo conhecesse; pois, isto só o poderia quem compreendesse tal essência. Assim como o conhecimento de um princípio não nos dá por consequência o conhecimento de tudo quanto dele deriva, se não compreendermos a virtude total dele. Ora, como as almas dos santos não compreendem a essência divina, por consequência não podem conhecer tudo quanto por essa essência pode ser conhecido. Por isso, também os anjos inferiores tem de certas cousas conhecimento por iluminação dos superiores, embora todos contemplem a essência divina. Mas cada um dos bem aventurados conhece, da essência divina, só o necessário à perfeição da sua beatitude. Ora, a perfeição da beatitude exige que o homem tenha tudo quanto quer, sem nada querer desordenadamente. Ora, queremos com razão reta conhecer o que nos concerne. Por onde, os santos, retos por excelência, hão de querer conhecer o que lhe diz respeito. E isso é necessariamente no Verbo que conhecerão. Ora, contribui-lhes para a glória prestar auxílio aos que deste precisam, para salvar-se. E assim, tornam-se cooperadores de Deus, a mais divina das cooperações, na expressão de Dionísio. Por onde, é claro que os santos tem conhecimento do necessário à esse ministério. E assim é manifesto, que no Verbo conhecem os desejos, as devoções e as orações dos homens, que lhes pedem auxílio.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ As palavras de Agostinho devem entender-se do conhecimento natural das almas separadas. Conhecimento esse que nos varões santos não está obscurecido, como o está nos pecadores. Mas não se referem ao conhecimento no Verbo, de que não gozava Abraão no tempo em que Isaías pronunciou essas palavras; pois, antes da paixão de Cristo ninguém fruía da visão de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Os santos, embora depois de esta vida tenham conhecimento do que nela se passa, não devemos contudo crer que sofram nenhuma dor, por saberem das adversidades dos que neste mundo amaram. Pois, gozam a tal ponto da plenitude da felicidade, que não são susceptíveis de nenhuma dor. Por onde embora conheçam, depois da morte, os infortúnios dos seus, nem por isso Deus deixa de lhes obviar a dor, se os retirou do mundo antes de sucederem esses infortúnios. ─ Talvez porém as almas não glorificadas sentissem dor se conhecessem os sofrimentos dos que lhes são caros. E como a alma de Josias não foi glorificada logo ao separar-se do corpo, Agostinho, fundado nisso, procura concluir, que as almas dos mortos não tem conhecimento do que se passa com os vivos.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ As almas dos santos tem a vontade plenamente conforme com a vontade divina, mesmo quanto ao objeto do querer. Por onde, embora o sentimento da caridade as prenda ao próximo, não lhe prestam auxílio porém senão na medida em que a justiça divina o vê disposto. Contudo devemos crer, que muito socorrem os próximos intercedendo por eles perante Deus.

RESPOSTA À QUARTA. ─ Embora nem por contemplarem o Verbo, necessariamente hão de os santos ver tudo no Verbo, contudo vêem o concernente à perfeição da sua beatitude, como se disse.

RESPOSTA À QUINTA. ─ As cogitações dos corações só Deus mesmo é quem as conhece; mas também podem-nas conhecer aqueles a quem Deus as revela, ou pela visão do Verbo, ou de qualquer outro modo.

Fonte: Suma Teológica, questão 72, artigo 1.

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