Santo Tomás responde: Os acidentes do pão e do vinho permanecem no sacramento da Eucaristia?

Parece que neste sacramento não permanecem os acidentes do pão e do vinho:

1. Com efeito, uma vez que se retira o ser anterior, se remove também o que o segue. Ora, a substância é por natureza anterior ao acidente, como demonstra Aristóteles.

Logo, já que após a consagração não permanece a substância do pão neste sacramento, parece que os acidentes não podem permanecer.

2. Além disso, no sacramento da verdade não pode haver nenhum engano. Ora, pelos acidentes julgamos a substância. Portanto, parece que o juízo humano é enganado se os acidentes permanecem, já que a substância do pão não permanece. Logo, isso não parece consentâneo com este sacramento.

3. Ademais, ainda que a fé não esteja submetida à razão, contudo não pode estar contra a razão, mas somente acima dela. Ora, a nossa razão inicia o conhecimento a partir dos sentidos. Portanto, a nossa fé não deve ir contra os sentidos. Ora, os sentidos percebem existir pão e a nossa fé crê existir a substância do corpo de Cristo. Logo, não convém a este sacramento que os acidentes do pão, objeto dos sentidos, permaneçam sem a substância do pão.

4. Ademais, parece que o que permanece depois da conversão é o sujeito desta mudança. Ora, se os acidentes permanecem após a conversão, parece que os mesmo acidentes sejam o sujeito da conversão. O que é impossível: pois não existe “acidente do acidente”. Logo, neste sacramento não devem permanecer os acidentes do pão e do vinho.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho afirma: “Na espécie do pão e do vinho que vemos, veneramos algo invisível, isto é, a carne e o sangue”.

RESPONDO. Após a consagração, aparece aos sentidos que os acidentes de pão e vinho permanecem. E isso é feito com razão pela divina providência:

1º. Não é costume, antes inspira horror aos homens comerem a carne humana e beberem o seu sangue. Por isso, nos são oferecidos a carne e o sangue de Cristo para ser tomados sob a aparência daquelas coisas a que os homens estão habituados, a saber, pão e vinho.

2º. Os infiéis zombariam deste sacramento se se consumisse a Nosso Senhor sob sua própria figura.

3º. O fato de consumir o corpo e o sangue do Senhor de maneira invisível torna a nossa fé mais meritória.

Quanto aos argumentos iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Como se diz no livro Sobre as Causas, o efeito depende mais da causa primeira que da causa segunda. Portanto, Deus, que é causa primeira de todos os seres, pode, pelo seu poder, fazer que permaneçam os seres posteriores após o desaparecimento dos anteriores.

2. Não existe neste sacramento nenhum engano. Os acidentes estão aí verdadeiramente conforme a percepção dos sentidos. O intelecto, que tem por objeto a substância, como ensina o Filósofo, é preservado de todo engano pela fé.

3. Assim fica clara a resposta à terceira objeção. Pois a fé não se opõe aos sentidos, mas visa a uma realidade que os sentidos não atingem.

4. Esta conversão, como se disse, não tem propriamente sujeito. Mas os acidentes, que permanecem, tem certa semelhança com o sujeito.

Fonte: ST III, 75, 5.

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